domingo, 1 de novembro de 2009

O Terramoto de 1 de Novembro de 1755 na Póvoa de Varzim

Na primeira metade do século XVIII todas as paróquias portuguesas elaboraram, por mais de uma vez, respostas a questionários preparados e solicitados superiormente, a fim de se saber o património, infra-estruturas, recursos, acontecimentos e a situação geral do país. Uma vez recolhidas, estas informações eram arquivadas em Lisboa, para serem utilizadas. Eram as “Memórias Paroquiais”.

Em resultado do terramoto de 1 de Novembro de 1755, com o que aconteceu de destruição, incêndios, inundações e roubos, verificou-se, logo a seguir, que as Memórias Paroquiais tinham desaparecido. Havia que elaborar novo questionário. Este foi enviado em 1758. Era composto de quase 30 perguntas. A que agora nos interessa é a que se referia ao terramoto.

Nas várias freguesias do concelho da Póvoa de Varzim, em algumas nada se sentiu e noutras apenas caíram alguns muros, que foram logo reparados.

O Pároco da freguesia de Nossa Senhora da Conceição da villa da Póvoa de Varzim respondeu assim:

“PERGUNTA 26ª – Se padeceu alguma ruína no terramoto de 1755 – e em que, e se está já reparada.

RESPOSTA – Não padeceu esta villa ruína no terramoto no 1º de novembro de 1755 – fez n’ella ainda maior horror que o tremor da terra que aqui se sentiu na mesma hora em que geralmente tremeu, o que se observou no mar; porque estando este com um brando susurro, quietas as ondas, porque assim o permittia a tranquilidade dos áres, das onze para o meio dia principiou primeiro por uma contensão d’águas descobrindo com ella pedras e area, que nunca se viram descobertas, e logo sem alterar o tranquilo se estendia em lingoetas de maré impetuosíssimas, passando os limites a que chegam ainda na maior braveza levando consigo os barcos, catraias, e bateis que achou na area da praia, em que causou damno arrombando-os nos encontros que lhes fez dar nas paredes dos quintaes das cazas contiguas ao mar.
Assim continuou d’onda a onda quazi até á noute, causando além da confuzão duplicado horror e cuidado ao povo, esperando quando o líquido elemento sahindo fora das ordinárias metas do seu limite, por castigo de Deus os innundava a todos, submergindo ao mar os barcos da pescaria, que se achavam n’esse dia n’elle por necessidade de colher as suas redes, os quaes chegando a terra ao mesmo passo em que os que estavam dez ou doze legoas ao mar confessaram nada sentir, e os de tres até quatro legoas, que só conheceram um movimento extranatural nos barcos. Todos se assombraram do que viam obrar as lingoetas da maré, e desampararam os barcos por temer que os corpos experimentassem as mesmas ruinas, que os proprios barcos tinham sentido dos encontros das paredes, e experimentaram alguns dos que do mar vieram.
Esta muito leve ruina se reparou logo para que as lanchas ou barcos continuassem no seu quotidiano exercicio da pescaria.”

( Fonte: Boletim Cultural da C.M.da Póvoa de Varzim)

quinta-feira, 26 de março de 2009

Regresso ao Paraiso


No último fim de semana, a coberto de ir comprar “vinho do Porto”, fui com toda a família fazer uma viagem pelo Douro. Marcamos dormida para Valença do Douro, numa casa de turismo rural onde nunca tínhamos ido. No sábado, depois de comprarmos o vinho na Régua e de almoçarmos, fomos até ao Pinhão e depois a São João da Pesqueira e S. Salvador do Mundo. Aí, mesmo até ao cimo do monte, só poucos subiram, que a idade não perdoa. Mas, ouvir o silêncio das montanhas, de dia, no meio de uma paisagem espectacular, não há dinheiro que pague.

Como diz a cantiga, “ A cidade é mais bonita / Quando vamos de visita…”
Talvez aquilo seja um inferno ou purgatório para quem lá mora, mas para quem visita é como um paraíso.

De regresso para oeste, a caminho da casa residencial, o meu carro avariou, mas deu para chegar ao destino. Depois do jantar, bacalhau para todos, toca a dormir.

No dia seguinte, levantar, pequeno-almoço e pagar. Seguimos para a igreja matriz da freguesia, para assistirmos à missa.

Tinham-nos dado boas referências do padre. A igreja estava em obras. Para assistirem à missa, estavam pouco mais que uma dúzia de mulheres, lá dentro, e meia dúzia de homens cá fora, ao sol, tudo gente de aldeia, à espera do senhor padre, que não tardou muito.

Chegada a homilia, o Padre dirige o discurso para a doutrina da igreja, para a educação em geral e para a situação geral do país.

Quanto à situação do país, refere a confusão que por aí vai, por exemplo na Educação; neste clima, ninguém consegue estudar ou aprender em condições.

Quanto à doutrina, refere que actualmente se fala muito em pecado, em proibições, em castigo, em incutir medo. As pessoas, quando pensam em religião, estão sempre a ouvir falar em proibições, em sofrimento, em condenação. Ele não entende assim. A igreja deve mostrar especialmente Cristo ressuscitado, sem esquecer, certamente, a cruz do Calvário.

E é neste ponto que ele refere a obra de Teixeira de Pascoaes: “Regresso ao Paraíso”.

Eu desconhecia o livro e por isso nunca o tinha lido.

Mas já fui ler, e gostei.

E li também a 1ª Carta de S. Paulo aos Coríntios, (15, v14).

No fim da missa, fomos falar com o Sr. Padre, e dar-lhe os parabéns pela homilia.