segunda-feira, 10 de novembro de 2008

D.Afonso Henriques falava Mirandês ?


O Mirandês de hoje vem da evolução que teve a língua do Reino de Leão, na terra de Miranda, ao longo de centenas de anos, sofrendo a influência do Português, do castelhano e de outras línguas, mas mantendo a sua matriz original: língua filha do Latim e pertencente à família das línguas asturo-leonesas.

Quando o reino de Portugal se constituiu, separando-se do Reino de Leão, já na terra de Miranda se falava Leonês e assim também seria na maior parte do actual distrito de Bragança. O Português que hoje aí se fala tem muitas palavras que vieram do Leonês para o Português e que os dicionários consideram, a maior parte delas, como regionalismos transmontanos.

Como é sabido, o primeiro rei de Portugal, D. Afonso Henriques, era filho de uma princesa filha do rei D. Afonso VI de Leão, e essa princesa falaria Leonês, como toda a corte leonesa desse tempo, a começar pelo rei. À volta de D. Teresa estavam as suas aias, também damas leonesas, falando a principal língua do reino. Assim sendo, não pode haver dúvidas de que o filho de D. Teresa, D. Afonso Henriques, terá aprendido a falar o Leonês e seria essa a língua que falava com sua mãe, as aias que a circundavam e os seus familiares leoneses. Todos sabemos, também, que D. Afonso Henriques foi educado por D. Egas Moniz na região de Lamego, onde se falava o galaico-português, e também terá aprendido esta língua, o que não quer dizer que tivesse esquecido a outra.

Podemos dizer que quando foi armado cavaleiro, na catedral de Zamora, rodeado pelos seus familiares, D. Afonso Henriques falaria leonês com eles. O mesmo se terá passado mais tarde quando assinou o tratado de Zamora, feito na mesma cidade. Ao longo da vida vários contactos teve com seu primo, rei de Leão, e com ele falaria leonês. Ainda que nada disto esteja escrito em nenhum documento, penso que dúvidas não haverá de que assim foi: D. Afonso Henriques falava leonês, quer dizer, falava uma língua a que agora damos o nome de Mirandês.

Tal como muitos portugueses, que não o são menos que os outros, D. Afonso Henriques não poderia dizer “ a minha pátria é a Língua Portuguesa”: por um lado, porque a pátria teve que a construir com luta; e por outro, porque o reino que tornou independente falava duas línguas, o galaico-português e o asturo-leonês, e esta seria também a língua principal do seu cunhado, D. Fernando Mendes II, de Bragança, casado com D. Sancha Henriques, irmã do nosso primeiro rei; mas sobretudo porque o mito da língua ainda não havia sido construído.

Tudo isto mostra que D. Afonso Henriques tinha consciência das duas línguas que se falavam no reino que fundou, e ambas se podem considerar como línguas fundadoras. Depois disso, as duas línguas foram convivendo ao longo de centenas de anos, e os mirandeses foram adoptando também a portuguesa, mas a língua mirandesa pode reclamar-se de ter nascido num berço de ouro tanto ou mais que a outra. Que valor tem isso ? Muito pouco, já que o importante foi que o povo trouxe a sua fala até aos nossos dias sem ajudas de ninguém, sem que o estado Português nela tenha investido um cêntimo.

Tratando-se de uma língua que esteve também na origem de Portugal e foi falada pelo nosso primeiro rei, o menos que se pode dizer é que a gratidão não é flor que os estados e seus governos cultivem.

Amadeu Ferreira
( Advogado, 29.07.1950
Professor convidado na Faculdade de Direito da Universidade Nova de Lisboa)

Nota. Os sublinhados no texto são meus

2 comentários:

Stardust disse...

Este texto nao tem piada.
Faz outro mais giro!!!
Tipo sei lá um poema...
beijinhos

arqueox disse...

Ai é que te enganas... tem muita piada, muita mesmo. Um pouco de história não faz mal a ninguém!
Jorge